quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Foi a convite do Imperador Wu Tai que o Venerável Bodhidharma foi à Chien Kang para uma audiência. O Imperador da dinastia Liang era um entusiasta do budismo e praticante renomado. Nos círculos mais íntimos cercava-se de eminentes mestres budistas chineses, como conselheiros na definição dos rumos e na implementação das políticas sociais. Além disso eram frequentes as reuniões para acalorados debates sobre os ensinos nos sutras, onde a sutilidade nos argumentos e a erudita dialética eram objeto de grande interesse. Evidente protetor da população chinesa, usava seus recursos e poder para que todos tivessem acesso à condições para viver com dignidade, construindo hospitais, escolas, templos budistas e distribuindo valiósos textos budistas à todos. Óbviamente era estimado e respeitado e todos aguardavam com ansiedade esse encontro, onde certamente o Imperador seria aclamado como emérito protetor do seu povo e do budismo. Na oportunidade o Imperador queria que o renomado Mestre lhe conferisse o reconhecimento patriarcal, quanto a grandeza de seu mérito pessoal, e quando o viu diante de sí, questionou-o enfático : construi muitos templos, mandei copiar muitas escrituras sagradas e incentivei moges e monjas a aprofundarem seus conhecimentos sobre o budismo. Qual a relevância e intensidade dos méritos que adquiri ? O monge de olhos azuis, vestindo somente sua rota túnica amarela, respondeu-lhe secamente : "Nenhuma !" Entre a perplexidade e a surpresa, o Imperador imerso em reflexões e tentando entender a ousada afirmação, perguntou : Que texto sagrado pode citar para justificar sua afirmação ? "Expansão do vazio, nada sagrado !" foi a serena resposta. Ainda perplexo diante da atitude do Patriarca que lhe dizia que o BudhaDharma era meramente um vasto vazio, afirmação essa em evidente contraste com o que estava acostumado a ouvir dos mestres chineses, de que causas eram seguidas de efeitos; que a prática de más ações resultariam em mau karma; que atos benéficos produziam imenso mérito. Exasperado o Monarca questionou : Sendo assim quem está diante de mim agora ? " Não tenho a mínima idéia !", foi a resposta que obteve. O que o Imperador não conseguia atinar era que naquele instante o Venerável Patriarca era o próprio BudhaDharma em ação, totalmente desligado de sí próprio, interessado somente em apontar para a verdadeira natureza da mente e instando que o Monarca despertasse do sono do convencionalismo de que se fazia refém. Sobretudo que tais atos, que tem inegavelmente grande mérito, se transformam em graves impecílios se praticados sob a mais leve perspectiva de autogratificação. O mais provável que o real anfitrião e sua corte esperavam, era que o eminente convidado pronunciasse agradáveis e aduladoras respostas às questões apresentadas, elogiando com sutíl e refinada retórica as virtuosas qualidades do Imperador e iniciando-o nas celestiais recompensas que se presumia merecedor. O episódio, entre outras tantas reflexões possíveis, tem o poder de mostrar que aquilo que eventualmente possa significar a essência doutrinária para alguns, nem sempre constituirá o cerne do BudhaDharma para outras pessoas. Atônito e pensativo o Imperador encerrou a audiência e retirou-se para os seus aposentos.Também consternado o Venerável Patriarca, abandonou o palácio, refletindo que se um homem reconhecidamente letrado e devotado ao budismo era incapáz de assimilar sua mensagem, como poderiam entendê-la aqueles com menor qualificação e sabedoria. Portanto retirou-se do estado dos Liang, atravessando o rio Yangtze até Ping-Cheng, onde ficou por alguns meses, dirigindo-se após para o Mosteiro de Shorin-jí, no pico Shaoshi, à sudeste da Capital Loyang, onde residiu por nove anos meditando em silêncio , voltado para uma enorme parede rochosa, pelo que ficou conhecido como o "Brâmane de rosto na parede". Em meados do século VI d.C. a Capital Loyang era uma das maiores cidades do mundo, com quase um milhão de habitantes, em sua maioria letrados e praticantes do budismo, ainda assim o Zen, conforme proposto por BodhiDharma não foi assimilado pelos seus contemporâneos. Existem registros confiáveis em textos, como por exemplo : "Vidas de Famosos Monges", escrito em 645 d.C por Tao Hsien; em "Essenciais na Transmissão da Mente" escrito em 845 d.C por Huang-po;e em "Anais da transmissão da Lâmpada" escrito em 1002 por Tao Yuan, que relatam, entre outros fatos, que monges invejosos de Shorin-jí, tentaram envenenar o Patriarca pelo menos umas três vezes, conseguindo o seu intento no quinto dia do décimo mês de 528 d.C. Os discípulos do primeiro Patriarca foram poucos, e seu Zen somente floriu plenamente, cerca de uns duzentos anos após a sua morte. A pergunta que tenho me feito ao longo desses meus anos de estudos e práticas é : porque, sendo odiado por seus contemporâneos, tendo seus ensinos rejeitados por todos, e sendo apenas mais um, entre os milhões de monges que ensinaram o Budismo na China, porque então o Venerável Patriarca é o mais famoso?! Passados mais de mil e quinhentos anos e seu Zen ainda ecoa vibrante em todos os templos Zen Budistas no mundo. Como muitos outros leigos iniciantes, comecei estudando o "Tesouro do Olho do Verdadeiro Dharma", o Shobogenzo, do Venerável monge Dogén, que é uma coletânea dos Sermões, por ele proferidos, em Eijhei-jí no Japão- hoje muito procurado e conhecido como Kosho-jí. Sem dúvida que o Shobogenzo teve imensa relevância nos meus trôpegos passos iniciais, mas a uns dezesseis anos, tive meu primeiro contato com " The Zen Teaching of Bodhidharma", vertido para o inglês em 1987 ,pelo conhecido praticante budista Red Pine. Desde então minha admiração pelo Zen despojado até o "tutano" de Bodhidharma se renova constantemente e o considero sem igual, pois enquanto alguns ainda insistem, por exemplo, que o budismo é "uma maneira de purificar a mente", ou "um caminho gradual para o estado Búdico", lembro de imediáto de frases em um dos quatro sermões, seu único legado escrito, como : "Repousar a mente em não-pensar, é Zen"; ou " Tudo que se fáz, é Zen", elas me despertam cotidianamente para o fato de que a espada de sabedoria do Primeiro Patriarca, continua "cortando em um" os nossos apegos aos convencionalismos, instando-nos a ver as Escrituras como uma ampla janela, por onde se vislumbra uma imensa paisagem de natureza totalmente incogniscível...entretanto que para uma íntima e profunda união com ela, é necessário ir além da "janela".

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Não raro, em toda a bibliografia budista contemporânea, é atribuido ao episódio que ficou conhecido como o " Sermão da flor ", o nascimento da Escola da Espontânea Percepção, que genéricamente designamos como Zen Budismo. Com frequência o Budha Shakyamuni itinerava com seus principais discípulos pelo Vale do Ganges. Numa dessas ocasiões,mais exatamente no Monte Buitre e possivelmente para testar suas visões mais ìntimas, ele ficou rodando uma flor entre os dedos, ao mesmo tempo em que os observava em silêncio. Dentre todos apenas o monge Kashyapa captou a plena síntese do gesto e sorriu, ao compreender que as reais intenções do Sábio Iluminado era que apreendessem o BudhaDharma de maneira intuitiva, ilimitada e isenta de argumentações metafísicas, numa transmissão de mente para mente. Por isso é que se diz que o Zen Budismo nasceu de um silêncio do Budha. É inegável porém que o Zen Budismo é oriundo da determinação do Brâmane Sidharta Gautama em realizar a mente plenamente desperta, estado esse que alcançou expandindo sua consciência para níveis além das limitações sensoriais ou intelectivas, sob um frondoso ficus em Bodh Gaya, à sudeste de Benares na Ìndia. A partir desse fato, alguma fontes erroneamente insistem em confundir o Zen Budismo com o Zen Bramânico, praticado sem alterações pelos ermitões pré-budistas desde os primórdios da ortodoxia vedântica Hindú, portanto com diferenças irreconciliáveis com a essência última do Zen Budismo. Assim embora realmente tenha sua origem na Índia, em especial sob os auspícios da Escola Iogacara, dos Sábios Indianos Maitreynata, Assanga e seu irmão Vasubandhu, o Zen Budismo somente floresceu como escola budista, quando por volta do ano 520 d.C. o Brâmane Bodhidharma chegou à Guang Zhou na China, tendo atravessado o mar asiático desde o Ceilão, na Ìndia. Já naquela época, para que se tenha uma idéia da influência budista na China, somente ao longo da margem sul do rio Yangtze, região de predominância da Dinastia Liang, o Venerável Bodhidharma encontrou quase três mil templos budistas, algo em torno de setenta mil monges e cerca de mil e quinhentas obras traduzidas à partir do Páli e do Sânscrito, por monges que viajavam à Ìndia para ter acesso aos muitos Sutras e aos comentários, ( Shastras ), que os Mestres budistas indianos faziam sobre os ensinos neles contidos. Entretanto, apesar dessa fecunda operosidade, o Venerável Patriarca constatou também um budismo meramente devocional, eivado de semelhanças com o pensamento e a perspectiva da ortodoxia budista indiana, em que o enfoque metafísico se vincula prioritariamente com as noções sobre "Existência", "Não Existência" e "Causa e Efeito", que estruturam as verdades relativas. Esta ênfase contrasta com o contexto metafísico desenvolvido, por exemplo, pelo Mestre budista indiano Kumarajiva, ou ainda pelo Mestre budista chinês Fa Hsien, que optaram por compor detalhadas análises sobre a " Visão do Caminho do Meio-Madhyamaka ", do Sábio MahaGuru Nagarjuna, que se referem à percepção do âmbito onde toda a fenomenologia se origina, se desenrola e se dissipa, ensejando assim que o limitato enfoque da percepção dualista " Existência, Não Existência " se desloque para o nível ilimitado de " Carência de Realidade Inerente - Shunyata ". Esse foi o contexto filosófico que o Primeiro Patriarca encontrou, as frágeis sementes do BudhaDharma, ainda reféns da multiplicidade de interpretações dos textos, da erudição e do esmero dialético dos Mestres budistas chineses e seu apego aos símbolos nos sutras e das inevitáveis comparações com os valores Confucionistas, como que aguardavam o momento propício para germinarem no solo chinês e transformarem todo o leste asiático. Vários episódios caracterizaram o impacto com que o Venerável Patriarca abalou as estruturas formais à que as mentes chinesas se apegavam, entretanto me parece, neste momento, mais importante visualizar as imensas dificuldades que o Brâmane de olhos azuis vivenciou...sem a familiaridade necessária com a lingua chinesa, cercado de pessoas incapazes de entender o cingalês, ofereceu à mentalidade budista chinesa sua mente aberta e descompromissada, nada lhes oferecendo de palpável, e optando por mostrar-lhes que o BudhaDharma não se permitia cercear por convenções, mas sim por ensejar aos seres a possibilidade de realizarem uma visão interior liberta de conceitualismos e de discriminações egóicas. Algumas fontes interpretam esse gesto com sendo menosprezo ao Cânone Budista, e é conveniente lembrar que o Venerável Patriarca era um Renomado Erudito nos " Sutras Adicionais - Avatamsaka, Lankavatara, Nirvana, Vimalakirti e Suramgama ", porém preferiu manter-se em coerência com as idéias que professava, ou seja...as escrituras são, nada mais nada menos, que um dedo apontando a lua da Budeidade, reconhecida a sua luz e fruidos os benefícios de sua beleza intrínseca e atemporalidade, e o dedo já não nos serve mais.

domingo, 16 de agosto de 2009

O Lankavatara Prajna Paramita Sutra é um dos sutras que exerceram significativa influência no desenvolvimento do budismo esotérico em todo o leste asiático. Oriundo de um Sermão proferido pelo Budha Shakyamuni em Rajagriha- Índia, é um alerta àqueles que buscam realizar a Mente Suprema, sobre a necessidade de ampliarem a percepção não-dual, como um caminho efetivo para a auto-realização. Este sutra pertence ao terceiro período de ensinamentos do Budha, e abre o elenco dos " Sutras Adicionais ", que em sua essência fundamentaram a Escola Iogacara - Mente Apenas e especialmente o C'han Budismo na China, à partir do século VI. Entre as opções disponíveis , preferi esta tradução de Gunabhadra, vertida para o Inglês pelo eminente erudito budista Daisetz T. Susuky, de onde extrai este fragmento.
"...Em resposta ao questionamento do Mahasatva Mahamatti, disse o Instrutor dos Mundos : Há quatro fundamentos sobre os quais um discipulo sincero deve apoiar-se para realizar a Mente Suprema. No primeiro, deve reconhecer que este mundo é somente uma manifestação complexa de suas próprias atividades mentais, e que surge como verdadeiro apenas sob a influência da energia do hábito- acumulada desde o passado sem princípio; por apegos à multiplicidade dos objetos, por raciocínios equivocados e em conformidade com idéias sobre um "eu" em detrimento de "outros eus". No segundo, deve reconhecer que todos os fenômenos são como uma visão num sonho, vazios de substância, não nascidos e sem natureza inerente, e que existem somente por uma complexa rede de causas e efeitos, oriundas da discriminação e de apegos diversos. No terceiro, deve reconhecer que a sua personalidade se manifesta somente por fluxos equivocados de sua própria mente, que é vazia de substância, não nascida e sem ego. Com estas três reflexões claramente definidas será capáz de apreender a essência última do quarto fundamento. Que : - a auto-realização da mente plenamente desperta, não é comparável com a percepção alcançada pela mente dos sentidos, nem com a cognição da discriminação, pois ambas pressupõem apenas uma diferença entre "ego e não ego ", e o conhecimento assim realizado é caracterizado por individualidade e generalidade; Que : - por estar baseada na identidade e unidade, nada há para ser discriminado ou declarado, mas estabelesce que o discípulo sincero deve estar livre de suposições ou apegos sobre fenômenos, idéias ou à própria personalidade..."

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

" A PSICOLOGIA BUDISTA E A PRÁTICA DA PLENA CONSCIÊNCIA NA VIDA MODERNA "
Este será o tema central do retiro, de 25 à 27 de setembro de 2009, na cidade de Recife-PE. Os monges ThÃY Pháp Dung e Thây Pháp Uyen, Mestres da Ordem Interser, fundada pelo Venerável Thch Nhat Hanh, serão os palestrantes. Para maiores informações sobre o evento, entrar em contato pelo email : sangarecife@gmail.com.
Tenho uma imagem de Budha,
não é feita de barro, nem de tecido,
nem de maneira talhada,
nem foi modelada com argila ou cinzas.
Nenhum artista pode pintá-la
nenhum ladrão pode roubá-la.
Existe desde o princípio dos tempos,
mas as pessoas mundanas não a percebem.
Está limpa sem nunca ter sido polida.
Ainda que não seja mais do que uma,
divide-se em milhares de milhões de formas...
Zengaku - Poeta Zen

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Há cerca de somente um século, os navios : Kasato Maru - em 1908; e Ryojun Maru - em 1910; trouxeram bem mais do que imigrantes japoneses para trabalhar nas fazendas de café, em São Paulo e no Paraná. Com eles vieram, permeando seus hábitos diários e a cultura geral, os ensinamentos do Budha Shakyamuni. Entre as várias denominações do budismo japonês que para cá vieram, àquela com maior proeminência era a Tradição Jodo Shin, que cultua o Budha Amidha.O Zen Budismo somente aportou em solo Brasileiro em meados da Década de 1960, ocasião em que o Sokan japonês, Ryohan Shingu Zenji inaugurou, no bairro da Liberdade em São Paulo, o Templo Bushin Ji, de onde passou a se dedicar ao trabalho de assistência religiosa, focada inicialmente apenas na necessidades da comunidade japonesa residente, mas logo abrangendo o interesse aupicioso de muitos leigos brasileiros. De imediáto a visão Zen Budista causou forte impacto nos ambientes intelectuais e científicos, principalmente naqueles voltados para a Filosofia e a Psicologia, mas também com significativa repercussão entre os Físicos, os Matemáticos e nas Ciências em geral. Os anos sessenta também se caracterizaram, além dos fenômenos migratórios desenvolvimentistas, pelo surgimento de outros movimentos, entre eles a Cultura Hippie e os Beatniks, que entre tantas outras maneiras de protesto contra a obssessão competitiva do modelo racionalista quantificador, apoderou-se de alguns Slogans, entre eles a palavra Zen como um Ìcone da contra-cultura, desta forma popularizando-a. De certo modo essa popularização divulgou o Zen Budismo, mas bem pouco contribuindo para aquilo que verdadeiramente lhe é intrínseco...Atenção Plena, desenvolvimento da paciência através da criatividade não egocêntrica e a desintencionalidade meditativa, entre outras possibilidades. De imediáto a fértil imaginação ocidental cercou o vocábulo de uma aura artística...assim "estar zen" ganhou a conotação equivocada de alhear-se, quase omitir-se da realidade objetiva. Isso acabou gerando uma visão estereotipada do Zen Budismo, como um caminho de evasão da complexidade da vida e dos seus problemas, quando o objetivo real é libertar o Sêr da ilusão e do sofrimento, aqui e agora, portanto incompatível com qualquer forma de evasão, inclusive o da esperança de algum dia abolir o conflito permanente que caracteriza a condição humana, além disso propondo que os seres visualizem, por sí mesmos, a natureza última da realidade em que se inserem. Refletindo longamente sobre estes fatos e sobre as possibilidades deste espaço na infovia, decidi aqui registrar os meus estudos e pesquisas, especialmente tudo o que oportunize uma melhor perspectiva da Universalidade do Zen budismo, desde o Sermão da flor no Monte Buitre, até os dias atuais onde, através do dedicado e fecundo trabalho de muitos monges e leigos, o BudhaDharma tem sido disponibilizado em todo o Continente Brasileiro. Em especial a minha motivação é a de ensejar um auxílio inicial a todos, que como eu, almejem desenvolver a percepção em níveis mais sutís do que aqueles a que as pessoas se acham comumente habituadas. Estou consciente das minhas inúmeras limitações, portanto rogo aos mais lúcidos que, sem condescender com as minhas imperfeitas conclusões, me auxiliem na tarefa a que me proponho.
Possam os seres vivos se beneficiarem dos méritos eventualmente gerados!Gasshô!!