terça-feira, 18 de agosto de 2009
Não raro, em toda a bibliografia budista contemporânea, é atribuido ao episódio que ficou conhecido como o " Sermão da flor ", o nascimento da Escola da Espontânea Percepção, que genéricamente designamos como Zen Budismo. Com frequência o Budha Shakyamuni itinerava com seus principais discípulos pelo Vale do Ganges. Numa dessas ocasiões,mais exatamente no Monte Buitre e possivelmente para testar suas visões mais ìntimas, ele ficou rodando uma flor entre os dedos, ao mesmo tempo em que os observava em silêncio. Dentre todos apenas o monge Kashyapa captou a plena síntese do gesto e sorriu, ao compreender que as reais intenções do Sábio Iluminado era que apreendessem o BudhaDharma de maneira intuitiva, ilimitada e isenta de argumentações metafísicas, numa transmissão de mente para mente. Por isso é que se diz que o Zen Budismo nasceu de um silêncio do Budha. É inegável porém que o Zen Budismo é oriundo da determinação do Brâmane Sidharta Gautama em realizar a mente plenamente desperta, estado esse que alcançou expandindo sua consciência para níveis além das limitações sensoriais ou intelectivas, sob um frondoso ficus em Bodh Gaya, à sudeste de Benares na Ìndia. A partir desse fato, alguma fontes erroneamente insistem em confundir o Zen Budismo com o Zen Bramânico, praticado sem alterações pelos ermitões pré-budistas desde os primórdios da ortodoxia vedântica Hindú, portanto com diferenças irreconciliáveis com a essência última do Zen Budismo. Assim embora realmente tenha sua origem na Índia, em especial sob os auspícios da Escola Iogacara, dos Sábios Indianos Maitreynata, Assanga e seu irmão Vasubandhu, o Zen Budismo somente floresceu como escola budista, quando por volta do ano 520 d.C. o Brâmane Bodhidharma chegou à Guang Zhou na China, tendo atravessado o mar asiático desde o Ceilão, na Ìndia. Já naquela época, para que se tenha uma idéia da influência budista na China, somente ao longo da margem sul do rio Yangtze, região de predominância da Dinastia Liang, o Venerável Bodhidharma encontrou quase três mil templos budistas, algo em torno de setenta mil monges e cerca de mil e quinhentas obras traduzidas à partir do Páli e do Sânscrito, por monges que viajavam à Ìndia para ter acesso aos muitos Sutras e aos comentários, ( Shastras ), que os Mestres budistas indianos faziam sobre os ensinos neles contidos. Entretanto, apesar dessa fecunda operosidade, o Venerável Patriarca constatou também um budismo meramente devocional, eivado de semelhanças com o pensamento e a perspectiva da ortodoxia budista indiana, em que o enfoque metafísico se vincula prioritariamente com as noções sobre "Existência", "Não Existência" e "Causa e Efeito", que estruturam as verdades relativas. Esta ênfase contrasta com o contexto metafísico desenvolvido, por exemplo, pelo Mestre budista indiano Kumarajiva, ou ainda pelo Mestre budista chinês Fa Hsien, que optaram por compor detalhadas análises sobre a " Visão do Caminho do Meio-Madhyamaka ", do Sábio MahaGuru Nagarjuna, que se referem à percepção do âmbito onde toda a fenomenologia se origina, se desenrola e se dissipa, ensejando assim que o limitato enfoque da percepção dualista " Existência, Não Existência " se desloque para o nível ilimitado de " Carência de Realidade Inerente - Shunyata ". Esse foi o contexto filosófico que o Primeiro Patriarca encontrou, as frágeis sementes do BudhaDharma, ainda reféns da multiplicidade de interpretações dos textos, da erudição e do esmero dialético dos Mestres budistas chineses e seu apego aos símbolos nos sutras e das inevitáveis comparações com os valores Confucionistas, como que aguardavam o momento propício para germinarem no solo chinês e transformarem todo o leste asiático. Vários episódios caracterizaram o impacto com que o Venerável Patriarca abalou as estruturas formais à que as mentes chinesas se apegavam, entretanto me parece, neste momento, mais importante visualizar as imensas dificuldades que o Brâmane de olhos azuis vivenciou...sem a familiaridade necessária com a lingua chinesa, cercado de pessoas incapazes de entender o cingalês, ofereceu à mentalidade budista chinesa sua mente aberta e descompromissada, nada lhes oferecendo de palpável, e optando por mostrar-lhes que o BudhaDharma não se permitia cercear por convenções, mas sim por ensejar aos seres a possibilidade de realizarem uma visão interior liberta de conceitualismos e de discriminações egóicas. Algumas fontes interpretam esse gesto com sendo menosprezo ao Cânone Budista, e é conveniente lembrar que o Venerável Patriarca era um Renomado Erudito nos " Sutras Adicionais - Avatamsaka, Lankavatara, Nirvana, Vimalakirti e Suramgama ", porém preferiu manter-se em coerência com as idéias que professava, ou seja...as escrituras são, nada mais nada menos, que um dedo apontando a lua da Budeidade, reconhecida a sua luz e fruidos os benefícios de sua beleza intrínseca e atemporalidade, e o dedo já não nos serve mais.
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Há coisas que não podemos e não devemos esconder e eu me reconheço como uma pessoa de poucos conhecimentos quando o assunto envolve religiões, no sentido da conhecimento delas. A família de meu pai era judia e de minha mãe, católica, apostólica e romana e eu, acabei fugindo das duas e de todas que me apareceram, mas por opção consciente. Não tenho religião, mas busco sempre me portar de modo a não cometer atos que possam me causar arrependimentos ou prejuízos aos outros e busco me sentir envolvida e comprometida com o meio. Mas o que me imprecionou aqui, foi o texto e vou lê-lo com mais vagar e mais tempo. Aos poucos!
ResponderExcluirAgradeço-te pela indicação do caminho e te desejo uma boa trilha...
Com 1 abraço!!!
Cris
Olá
ResponderExcluirEspero que estejas bem.
Fiquei curiosa em saber mais sobre o texto. Poderias postar, sempre que possível, a origem bibliográfica das tuas pesquisas?
Preciso de algumas orientações e conto com a tua compreensão.
Que o teu dia seja iluminado pelo Sol de Floripa neste prenúncio de primavera, de renovação, de continuidade e de interrupção...
Abraço